Se eu soubesse... ✍


Nunca quis acreditar que a solidão chegaria. E que ao ficar velha e sozinha, tudo o que era bom e confortante passariam a ser apenas memórias de um "bom dia" dito pelo meu falecido amor.
Tudo anda devagar agora, como eu. Já nada acontece, só o vento passa para dar sinal que ainda existe vida, excepto dentro destas paredes.
Dentro destas paredes eu morro, eu e as minha lembranças, já nem lágrimas consigo derramar, já nem um sorriso consigo soltar, já só o nada acontece.
Os cobertores e as almofadas largam o cheiro a velho, o cheiro a mofo, e por muito desconfortável que seja, o hábito é ainda maior, por isso mantenho-me embrulhada nos cobertores e repousada nas almofadas sem nada para fazer.
Os programas de TV já não despertam qualquer interesse em mim, talvez por inveja de saber que estão todos lá fora a sentir e a viver enquanto eu estou aqui sentada e parada simplesmente a observar.
Até a música em si mudou, o que me deixa triste pois sempre fui uma grande amantes desta arte, até hoje que parece que já nada faz sentido e eu não a consigo suportar.
Olho os quadros que um dia comprei e trato das plantas que um dia fiz nascer, e nos piores dias vejo os velhos albuns de fotografias, e que belas fotografias são estas! Todas elas captavam momentos e ações que, na altura, pareciam não ter fim.
Ao fim da noite vou sempre á varanda ver os jovens que passam, com a idade deles também pensava que a noite era apenas uma criança mas na verdade a criança era eu.
Se eu soubesse que tudo se iria rematar a este momento se calhar teria vivido mais, isso ou teria casado com um homem rico que me teria deixado uma grande fortuna e a esta hora estaria de alma viva a viajar por aí.
Mas eu escolhi o amor e a sinceridade, e tudo para quê? Para nada. Olhem, para o meu marido falecer e os meu filhos serem felizes, mas quanto a mim não serviu de nada, já nem a satizfação de os ter criado me serve.
É verdade que tenho a alegria da presença dos meus netos todos os domingos, mas e os outros seis dias da semana? Que farei? Ah sim, o mesmo de sempre. Levanto-me cedo, tomo o pequeno almoço com o quente pão fresco que o padeiro me traz todas a manhãs e fico o resto do dia sentada até sentir que tenho vontade de dormir, o que quase nunca acontece.
É assim a velhice, um triste nada no final de um tudo.


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