Um instante num infinito...
Estavas à frente mas voltaste atrás, que raio estás tu a fazer? Foste feito para estar à frente e nunca aos serviços de alguém, mas o medo consome, enche-te e ficas parado.
Vives num mundo cheio de gente e a única solução é a estatização indesejada. É sozinho que chegas lá, mas sozinho não alcanças nada.
Uns vinte passos e o mesmo café de sempre, com sabor a amargo e quente como forma de metáfora para aquilo que te rodeia. Todos te querem bem por alto, mas cá em baixo ninguém faz nada. Tentam dar-te a mão e mais parece um pretexto para te conseguirem arrancar o braço.
O cansaço solene e diário depois de um dia lá fora faz-te pousar em claro, e é claro que tu deixas. Por momentos quase morreste e não há melhor sensação que essa, a de quase morrer para depois quase viver.
Quando não vem o sono, vem um chá e amanhã é outro dia. Eu ajudava-te a levantar mas também ainda estou a tentar dormir, porque custa.
Não me lembro de alguma vez a vida me ter sido ensinada assim. Caminho ás cegas entre ansiedades e desesperos, no entanto os outros parece que conseguem.
O teu refugio é o caixão em que te deitas e fazes de conta que estás bem, que és feliz. Não te sentes bem naquele espaço mas deixas-te estar. É mais difícil desistir do que parece. Quase que sabes o que queres e esqueces-te do que precisas.
Uma corrente líquida a escorrer-te pelo rosto e a falta de ar que sufoca. Não há maneira justa de viver quando não encontras maneira de respirar.
É naquilo que lês, vês e ouves que reparas no tempo que passou e tu parado, e é nas pessoas que passam por ti e que estão em ti que encontras quem és. Mas é acima de tudo quando bates no fundo do poço e a tua única opção é emergir que te apercebes daquilo que quase perdeste: tu mesmo.

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