Inábil afeto
Um apaixonado é um ser incapaz.
Sempre me disseram que o amor é cego, mas acho esta designação de amor bastante incompreensível. Não é o amor que é cego, é o apaixonado que só vê aquilo que quer.
Não há cá coerência nem eficácia quando há amor; quando há amor existe apenas a outra pessoa e mais nada. Acreditamos na vericidade de tudo o que ela diz e faz e desculpamos ações que noutros tempos seriam o suficiente para acabar com tudo, porque não foi pela pessoa em si que nos apaixonámos, foi essencialmente pelos seus atos para connosco, pela aceitação de que hoje a amamos, mas que amanhã é outro dia e podes muito bem não ter a mesma pessoa que tinhas a teu lado, seja porque ela mudou ou cresceu, e no segundo caso basta-te acompanhar e viver um crescimento conjunto: a isso chama-se relação interpessoal.
No fundo, um apaixonado até pode pensar, mas não consegue agir, muitas vezes contrapondo os seus próprios valores. Um apaixonado ama, apenas isso, e qualquer ato, por muito consciente que pareça, é somente mais um passo para o aproximar da sua paixão.
Um apaixonado é um inútil, um inconsciente, um jumento para a sociedade e muitas vezes para si mesmo, mas para a pessoa amada um apaixonado é uma dádiva, uma benção, mais um ponto a seu favor no seu dia a dia, porque um apaixonado é capaz de se lembrar de fazer tudo pelo outro, incluindo esquecer-se de fazer o mínimo de si mesmo.

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